2/11/15 11:02
Atualizado em 2/11/15 às 11:02

Livros abrem caminhos para jovem do sistema socioeducativo

Interna de unidade de Santa Maria criou gosto pela leitura, escreveu redação premiada pela Unesco e participa de grupo de pesquisa do CNPq


A interna da unidade de Santa Maria que teve redação premiada pela Unesco e a professora Débora Diniz
A interna da unidade de Santa Maria que teve redação premiada pela Unesco e a professora Débora Diniz. Foto: Toninho Tavares/Agência Brasília

Nas prateleiras, empilham-se conhecimento e sabedoria. As 3,5 mil obras literárias da biblioteca da Unidade de Internação de Santa Maria representam para muitos adolescentes e jovens páginas em branco para uma nova história. Cecília*, de 18 anos, não só adquiriu o hábito da leitura — devora, em média, três livros por semana — como também escreve e, com uma redação que fez para o Dia do Professor, ganhou prêmio da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). “Quando eu cheguei, nem queria ler”, confessa.

A unidade recebeu o apelido de “cadeia de papel” pelo pioneirismo em oferecer essa opção aos internos — projeto que existe há dois anos. Segundo o agente responsável pela biblioteca, Abdallah Antun, cerca de 90% dos jovens costumam ler. Antun diz que eles pedem pelos livros e que a mudança no vocabulário é nítida. “Eles chegam falando muitas gírias, é difícil de compreender. Com o livro, melhoram o linguajar.”

Como a maioria dos internos, a vencedora do prêmio da Unesco encontrou no ato de ler mais do que um passatempo. “É quando eu vou ‘para fora'”, compara a jovem, que está no sistema de socioeducação há um ano e um mês devido a envolvimento com tráfico de drogas. Ainda sem previsão de quando sairá, planeja fazer o Exame Nacional do Ensino Médio para o curso de publicidade. A prova para internos e detentos está prevista para o início de dezembro. Entre o acervo de Cecília, destacam-se o autor francês Albert Camus, o russo Fiódor Dostoiévski, com a obra Crime e Castigo, e o escocês Arthur Conan Doyle, criador do personagem Sherlock Holmes.

Exemplo
A redação foi uma homenagem à professora de direito da Universidade de Brasília Débora Diniz, que conheceu a interna ao desenvolver pesquisa na unidade. A dedicação da garota aos estudos chamou a atenção. Para a docente, ela é exemplo de que a educação é capaz de abrir novos horizontes para jovens em conflito com a lei e ressocializá-los. “A principal lição dessa história é que, com educação e políticas sociais, é possível desenvolver um outro mundo. Cuidar dela [da jovem] é cuidar de todos nós.” Débora conta que Cecília participa, ainda, de um grupo de pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico para alunos do ensino médio. “Ela é a primeira do País do sistema socioeducativo a ter bolsa do CNPq.”

Em um lugar que só tem grades, ela chega com livros nas mãos. Toda frágil, passa pelo corredor pesado de maldades. Para na porta do meu quarto e abre um sorriso que reflete um futuro cheio de promessas. Ela diz que sou capaz, que tenho muitas qualidades, que isso vai acabar e que, quando estiver em LIBERDADE, poderei recomeçar junto com ela. Às vezes, penso em desistir, mas ela me olha nos olhos e diz: “Eu estou com você”. Sou uma adolescente em conflito com a lei, estudo em escola de cadeia e tenho 18 anos. A minha professora não ensina matérias, mas sentidos para vida. É isso que a faz minha heroína. (Redação vencedora do prêmio da Unesco)

Resultados
Agente da unidade de Santa Maria, Jacqueline Morais afirma que o acesso aos livros teve papel fundamental para o prêmio da jovem de 18 anos: “A conquista dessa redação é um fruto também das bibliotecas”. Jacqueline é assessora da gerência feminina e acompanha o comportamento dos internos desde que esses espaços foram criados. “Melhoram a habilidade de escrita também.”

Para o secretário de Políticas para Crianças, Adolescentes e Juventude, Aurélio Araújo, a premiação é resultado de trabalhos educativos promovidos no sistema. “Aqui, a gente tem uma prova de que, quando a educação é levada a sério, pode ressocializar o jovem.”

Araújo diz que a pasta busca abrir oportunidades para os internos e acompanhá-los mesmo depois de ganharem liberdade. De acordo com a secretaria, todas as sete unidades de socioeducação têm bibliotecas para estimular a leitura. São elas: o Núcleo de Atendimento Integrado, no Plano Piloto, as Unidades de Internação de Planaltina, de Santa Maria e de São Sebastião, a Unidade de Internação e a de Saída Sistemática, ambas no Recanto das Emas, e a Unidade de Internação Provisória, no Complexo Penitenciário da Papuda.

*Nome fictício para preservar a identidade da entrevistada.

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