21/11/19 9:00
Atualizado em 21/11/19 às 9:00

Os bastidores do I Festival de Cinema de Brasília

Na estreia, o curta-documentário de Paulo Gil Soares “Memória do Cangaço” – a aventura de um bandido-herói

Curta-documentário de Paulo Gil Soares “Memória do Cangaço”. Crédito: Divulgação

Foi há 54 anos, num 15 de novembro de 1965. As primeiras imagens que reluziram na tela do Cine Brasília, naquela noite especial para a cinematografia local e nacional, pegaram todos de surpresa. Trazia registros raros de Lampião (Virgulino Ferreira da Silva cangaceiro brasileiro que atuou no sertão nordestino), feito nos anos 30 pelo libanês, Benjamin Abraão, misturados com narrativa de cordel e depoimentos de sangue e luta.

Era o curta-documentário de Paulo Gil Soares, “Memória do Cangaço”. A aventura de um bandido-herói que se confundia com misticismo, muita violência e senso de justiça desvirtuado. Nascia assim, o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, primeiramente chamado de Semana do Cinema Brasileiro, que caminha, amanhã (22), para a sua 52ª edição.

Curiosamente, nesse mesmo espaço, templo da sétima arte em Brasília, mais de 30 anos depois, os pernambucanos Lírio Ferreira e Paulo Caldas, transformaram em ficção a história de amizade entre esse “Robin Hood do sertão” e o “mascate árabe” no longa, “Baile Perfumado” (1996), vencedor do prêmio de melhor filme daquele ano.

Parecia até que o passado e o presente estavam acertando seus ponteiros com os deuses do cinema e a mística do festival mais antigo e tradicional do país. Um ritual que, volta e meia, insisti em acontecer.

“Essa coincidência tem tudo a ver porque, com a era Collor [Presidente da República Fernando Collor de Melo de 1990 a 1992], nos anos 90, houve o desmonte do cinema brasileiro. Quando a classe retoma, na metade da década para a frente, as novas gerações de cineastas recorrem às velhas tradições do cinema brasileiro. Não apenas ‘Baile Perfumado’, mas também ‘Central do Brasil’, que dialoga com o Cinema Novo do Nelson Pereira dos Santos”, traça o paralelo, o crítico de cinema e jornalista Sérgio Moriconi, diretor do curta “Athos” (1998) e frequentador assíduo dessa que é a mais importante mostra de cinema do Brasil.

Assim como o Cine Brasília, o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro é um patrimônio da cidade sonhada por Juscelino Kubistchek e projetadas por Lucio Costa (urbanista) e Oscar Niemeyer (arquiteto). Faz parte da identidade cultural do DF e teve sua origem no seio de outra instituição pioneira local, a Universidade de Brasília (UnB). E num momento importante, crucial e determinante para o cinema brasileiro e a política nacional.

 O início de tudo

Paulo Emílio Salles Gomes, junto com outros acadêmicos da UnB, ajudou a implantar o curso de cinema da universidade, o primeiro do país. Foto: Cinemateca Brasileira

Tudo começou no início dos anos 60, quando o então professor Pompeu de Sousa, da Faculdade de Comunicação de Massas da UnB, convidou o intelectual Paulo Emílio Salles Gomes, para dar um curso de extensão cultural sobre Nelson Pereira dos Santos, então na crista da onda como um dos expoentes do “Novo Cinema Brasileiro”.

O foco era o filme mais recente do cineasta, o drama sertanejo, “Vidas Secas” (1963), baseado na obra homônima de Graciliano Ramos. Um sucesso de crítica e público, o filme seria um marco na cinematografia brasileira e, juntamente com outras duas obras fundamentais da época, “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964), do baiano Glauber Rocha, e os “Os Fuzis” (1964), do moçambicano, Ruy Guerra, formariam a tríade que daria origem ao Cinema Novo, o mais emblemático movimento cinematográfico da América Latina.

“Era o cinema sendo considerado institucionalmente pelos meios acadêmicos, que passam, então, a reconhecê-lo (particularmente o Cinema Novo) como matéria de interesse universitário e intelectual”, lembra a pesquisadora Berê Bahia, no livro, “30 anos de Cinema e Festival – A História do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (1965 –1997) ”.

Ferrenho defensor do Cinema Nacional e um dos fundadores da Cinemateca Brasileira – instituição paulista que, desde 1940, é responsável pela preservação da produção audiovisual brasileira – Paulo Emílio Salles Gomes extrapolaria os meandros do campus universitário realizando, na Escola Parque (507/508 Sul – escola pública da rede de ensino do DF), em 1964, outro curso destinado à “apreciação cinematográfica”.

Esses dois eventos, apresentados em forma de mostra, culminariam na semente que germinaria, no ano seguinte, em 1965, na criação do primeiro curso de cinema que se tem registro em uma faculdade pública brasileira – a UnB -, além do surgimento da I Semana do Cinema Brasileiro, a partir de 1967, Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

“A mostra de filmes na Escola Parque era prestigiada não só pela comunidade acadêmica, mas pela imprensa e a cidade em peso”. Foto: Joel Rodrigues / Agência Brasília

“A mostra de filmes na Escola Parque era prestigiada não só pela comunidade acadêmica, mas pela imprensa e a cidade em peso”, conta Berê Bahia.  “Se o festival teve um pai, certamente foi Paulo Emílio Sales Gomes. E se teve mãe, foi a própria Universidade de Brasília, cujos alunos e docentes, nunca abandonaram sua concepção”, escreve o jornalista e pesquisador, Lino Meireles, autor do livro “Candango – Memórias do Festival, Vol. 1”.

Entre os alunos e docentes do qual Meireles faz referência no livro estão os cineastas Nelson Pereira dos Santos, Vladimir Carvalho e Geraldo Sobral Rocha (falecido em julho deste ano), os professores Rogério Costa Rodrigues e Jean-Claude Bernardet (também crítico de cinema) e o acadêmico Pompeu de Sousa, o intelectual, Walter Mello de Albuquerque, criador do Arquivo Público do DF. “É nesse ambiente que nasceu o curso de cinema da UnB, o primeiro curso regular de cinema no Brasil”, lembraria anos mais tarde o “veterano de guerra”, Vladimir Carvalho, em entrevista para o livro de Lino Meireles.

Influência do cinema político

Baiano de Monte Santo, aos 14 anos, Fernando Adolfo foi estudar na capital, Salvador, conhecendo, nessas duas cidades, o inquieto Glauber Rocha. O encontro foi rápido, mas o suficiente para mudar sua vida. “O conheci, ligeiramente, com Paulo Gil Soares, seu assistente de direção e equipe técnica do filme, mas o bastante para influenciar minha trajetória profissional”, revela.

Em 1965, aos 18 anos, Adolfo desembarcou em Brasília, abraçando uma oportunidade de trabalho na extinta Fundação Cultural do Distrito Federal, hoje Secretaria de Cultura e Economia Criativa (Secec). Na época, o diretor executivo da instituição era o conterrâneo, Carlos Augusto Albuquerque, e o presidente, Cleantho Rodrigues de Siqueira.

“O professor Cleantho designou uma comissão organizadora para colocar em prática a lª Semana do Cinema Brasileiro, presidida pelo Paulo Emílio Salles Gomes”, lembra Adolfo, até 2010, servidor da Secretaria de Cultura, sempre ligado ao Festival de Cinema. “Eu fazia parte do grupo, não fui aluno do professor Paulo Emílio, estudava no Elefante Branco [escola pública da rede de ensino do DF], mas assistia ele comentar filmes, que eram verdadeiras aulas ali no Clube de Cinema de Brasília, criado por Geraldo Sobral Rocha, e Rogério Costa Rodrigues, na Escola Parque”, recorda.

Se tivesse chegado dois, três anos mais cedo, Fernando Adolfo teria como chefe ninguém menos do que o poeta Ferreira Gullar, o primeiro gestor da instituição. Poucos sabem, mas foi na gestão do maranhense que o primeiro projeto do Cinema Novo ganharia um importante empurrão.

Trata-se da coletânea de curtas, “Cinco Vezes Favela”. Quem lembra a história é o cineasta Cacá Diegues, na época estudante universitário, no livro “Vida de Cinema – Antes, Durante e Depois do Cinema Novo”.

“Como a UNE não tinha recursos para fazer o filme, o Leon (Hirszman/Cineasta) convenceu o Carlos Estevam (sociólogo) a ir com ele para Brasília pedir ‘socorro’ a Ferreira Gullar, que dirigia a Fundação Cultural do Distrito Federal. Gullar procurou José Aparecido de Oliveira, secretário particular de Jânio Quadros [Presidente da República Brasil em 1961], que arrumou o necessário para começarmos a produção, permitindo, sobretudo, a compra do negativo virgem, item mais caro de nossos orçamentos”, escreve Diegues, que nesta edição do festival irá presidir o júri.

O episódio envolvendo o poeta Ferreira Gullar e a jovem turma do Cinema Novo, nos primórdios de Brasília, ilustra bem o contexto político, social e cultural em que surgiu o mais importante, tradicional e emblemático festival de cinema do país.

Ou melhor, como toda essa confluência de informações e transformações, foi determinante para o surgimento da mostra mais duradoura do Brasil dentro de relevante contexto histórico e social da época.

“Na verdade, o Festival nasce com o crescimento político do cinema brasileiro. Veja bem, nasce um ano e pouco depois da gênese do Cinema Novo brasileiro, desde sempre tem essa característica política. É o Festival que lutou contra a censura, que lutou arduamente pela afirmação do cinema brasileiro”, constataria Geraldo Sobral, no livro, “Candango – Memórias do Festival, Vol. 1”, de Lino Meireles.

“O Festival era, de certo modo, um foco de resistência à ditadura [regime militar que durou de 1964 a 1985]. Não só pelos filmes que passavam, mas pela ideia de passar filmes brasileiros, de ser um festival de cinema brasileiro”, concorda Cacá Diegues.

Daí a importância, por exemplo, de o filme de abertura da primeira edição do Festival de Brasília, em 1965, ser “Memória do Cangaço”, de Paulo Gil Soares, por sinal, o principal assistente de Glauber Rocha na pesquisa de cordel que fez para o filme “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964), marco do Cinema Novo e da cinematografia brasileira.

As peças se encaixavam. Política e cultura engajados andando de mãos dadas na mesma direção. Numa época em que, como cantaria Geraldo Vandré na música Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores: “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”.

Os filmes e os vencedores

Realizado entre os dias 15 e 22 de novembro de 1965, a 1ª mostra do Festival de Brasília contava com seis longas-metragens e dez curtas. Dos dezesseis participantes, nove nomes estavam ligados com a nova corrente cinematográfica que colocou o país de ponta cabeça entre o final dos anos 50 e 60: o Cinema Novo.

Eram eles, Leon Hirszman, que concorreu com “A Falecida”, Walter Lima Jr., defendendo “O Menino do Engenho”, Luiz Sérgio Person, por trás de “São Paulo S. A.” e Paulo Cezar Saraceni com “O Desafio”, mais o vencedor da noite, “A Hora e a Vez de Augusto Matraga”, do paulista Roberto Santos, que abiscoitaria ainda, o Candango de Melhor Diretor, Roteiro e Melhor Ator, para Leonardo Villar, no papel-título.

“A semana toda foi incrível. Além dos filmes, a surpresa das noites no Cine Brasília, nesta primeira edição, foi o público, beirando 2 mil pessoas”, lembra Fernando Adolfo. “Foi lindo, naquela época, o cinema tinha 1.200 poltronas, tempo bom”, continua o ex-servidor.

Baseado no conto de Guimarães Rosa, “A Hora e a Vez de Augusto Matraga” retrata os paradoxos e conflitos existenciais do homem do sertão, trazendo à tona a realidade nua e crua de um Brasil profundo e distante dos grandes centros urbanos, preocupação constante, é bom dizer, dos cineastas do Cinema Novo.

“O realizador de cinema brasileiro poderá comunicar-se diretamente com seu público com mais força se procurar antes de tudo a simplicidade da linguagem”, diria Roberto Santos, na época, em consonância com o movimento.

Além do já mencionado Paulo Gil Soares, com o curta-metragem sobre o cangaço, outros nomes da categoria que dialogavam com a corrente cinematográfica que ajudaria a forjar o conceito do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro foram Geraldo Sarno e Arnaldo Jabor.

O primeiro, esmiuçando o impacto do fluxo migratório do Nordeste para o Centro-Sul do país, na vida das pessoas nos idos dos anos 60. O segundo, o grande vencedor neste formato, um olhar poético sobre a vida circense.

“Foi feito com muita candura, quase ingenuamente, durante dois meses acompanhando um circo pelo subúrbio do Rio [de Janeiro]”, conta Jabor à Agência Brasília. “Na época, existia no ar, uma espécie de euforia boa, pela existência do festival como foco de resistência com um ano de golpe na rua”, recorda.

Paulo Gracindo e Fernanda Montenegro em “A Falecida”. Crédito: Divulgação

Protagonista do filme “A Falecida”, baseada em trama de Nelson Rodrigues, Fernanda Montenegro, então com 36 anos, seria a primeira atriz a receber o prêmio na categoria em Brasília. Não ainda o famoso troféu Candango, que só começaria a fazer parte da festa, em 1967.

Homenageando os operários que trabalharam na construção da cidade, a peça foi concebida pelo escultor Dante Croce, artista colaborador em obras de Alfredo Ceschiatti, responsável, entre outras obras da cidade, pelos “Anjos e os Evangelistas” da Catedral de Brasília.

“Ambos faziam parte da equipe do Oscar Niemeyer”, destaca Fernando Adolfo.