9/4/20 18:32
Atualizado em 9/4/20 às 20:34

Levino de Alcântara e a Escola de Música de Brasília

Fundada há 46 anos, a respeitada instituição de ensino musical da cidade nasceu da persistência de um maestro anarquista

Inaugurada em 1974, Escola de Música de Brasília (EMB) começou ensinado o clássico e, depois, incluiu o popular | Foto: Arquivo / EMB

Esqueça Oswaldo Montenegro, Zélia Duncan, Cássia Eller ou mesmo Renato Russo. Para muitos, o maior ícone da música de Brasília se chama Levino Ferreira de Alcântara (1922 – 2014). E olha que ele nem tocava guitarra ou andava pelas ruas espaçosas da cidade de brinco na orelha e tatuagem nos braços, cabelo ao vento. Apenas empunhava uma baqueta de maestro que, tal os moinhos de Don Quixote, movia sonhos para além-mar, além-mundo. E, com esse gesto tão simples, mas nobre, moveu montanhas, deixando como legado uma instituição que, há 46 anos, vem marcando gerações de músicos da cidade, do país e do mundo inteiro: a Escola de Música de Brasília (EMB).

Fundada em 1974, a EMB, como o espaço se popularizou na intimidade de sua singela sigla, só nasceu por conta da persistência e resiliência desse pernambucano de Recife que começou sua relação com a cidade lá no final da década de 50. Mais precisamente em 1957, quando, morando em Anápolis (GO), fora convidado para organizar um coral para animar os trabalhadores da cidade que estava brotando em meio a poeira vermelha no coração do cerrado. “Trouxe o grupo para uma apresentação no Núcleo (na época Cidade Livre)”, lembraria anos depois, numa entrevista para o Informativo Música em Brasília, da Musimed, de abril de 2006.

Levino de Alcântara foi dos primeiros mestres a chegarem na cidade, no início dos anos 60, formando, junto com outros educadores visionários, a primeira geração de músicos brasilienses a partir do ensino médio. Deu aula no Ginásio Moderno da Caseb, depois no Cemab, no Centro Médio de Taguatinga e no Centro Médio Elefante Branco, no Plano Piloto. Dessa experiência criou o famoso Madrigal de Brasília, um dos corais mais respeitado do Brasil, com repertório vocal que abrange todos os períodos da música ocidental.

“O maestro Levino pode ser considerado um missionário da música. Com sua experiência em corais, criou o Madrigal de Brasília, que se tornou o seu troféu para consolidar sua meta, a Escola de Música de Brasília”, conta em entrevista à Agência Brasília, a pesquisadora e escritora, Fátima Bueno, autora do livro, “Do Peixe Vivo à Geração Coca-Cola – Música em Brasília (1960 – 1980)”.

Pitangueiras no cerrado

A Escola de Música de Brasília só saiu do papel graças à persistência e resiliência de Levino de Alcântara, um visionário não apenas como educador, mas também como fomentador e realizador. Antes da sede definitiva, ali na L2 Sul, a Escola de Música de Brasília já havia ocupado espaços de igrejas católicas, presbiterianas e de um centro espírita. Um dia, no final dos anos 60, se encantou por um grande terreno no início da Asa Sul, bem próximo às embaixadas e das Esplanada dos Ministérios. Não vacilou em consumar um ato de vandalismo.

“Cerquei o terreno e plantei pitangueiras, dezenas de pés, depois finquei uma placa ‘Escola de Música’ e espalhei a notícia”, recordaria anos depois, com orgulho o mestre.

O golpe de anarquia urbana deu certo. Consumada a apropriação, as autoridades caíram de pau, barganhando um outro local para a sede da Escola de Música. Irredutível, Levino bateu o pé, não abrindo mão do local nobre.  Achava a proximidade com as embaixadas, centro de ligação com músicos de várias partes do mundo, um luxo. Venceu a queda de braço. Em 11 de março de 1974, seria inaugurada a sede definitiva da Escola de Música de Brasília (EMB), na 602 Sul. E não apenas isso. O espaço seria reconhecido como instituição da Rede Pública do DF, passando a centralizar o ensino público para profissionais de música.

“A Escola de Música de Brasília é modelo para demais cidades. Tornou-se Centro de Ensino Profissional, atualmente com cerca de 100 cursos, acolhendo alunos de diferentes origens e faixa etária, tornando-se um polo criador e difusor de cultura”, atesta a pesquisadora e escritora Fátima Bueno.

Outro golpe de mestre de Levino aconteceu em 1978. Devido ao cancelamento do curso de música de verão em Curitiba, ele não deixou passar a oportunidade quando lhe propuseram trazer o evento para a cidade. “Vamos embora! E foi uma correria! Programar tudo, divulgar, arranjar hotel… Não foi fácil! A gente saia por Brasília, o (embaixador Wladimir) Murtinho ia comigo pedindo dinheiro em todo canto: Banco do Brasil, Petrobrás, autarquias, a secretaria de Educação”, recordaria, em depoimento ao Informativo Música em Brasília, em 2006.

Nascia assim, quase que por acaso, meio que sem planejamento, um dos eventos mais emblemáticos e importantes eventos do calendário musical da cidade, o Curso Internacional de Verão de Brasília (Civebra), há mais 40 anos promovendo o intercâmbio entre instrumentistas dos quatro cantos do planeta. “O Curso de Verão foi muito importante porque trouxe músicos de todos os lugares, a troca foi bastante grande e fez da EMB uma referência nacional e internacional”, avalia a professora de piano aposentada da instituição, Elenice Maranesi.

Os anos pós-Levino

Em 1985, após 11 anos de gestão Levino de Alcântara, uma nova fase seria inaugurada na Escola de Música de Brasília, com a introdução de novos núcleos de ensinos que fizeram a fusão entre o erudito e o popular. Essa nova forma de metodologia, incentivada pelo maestro carioca Carlos Galvão, falecido em 2009, ajudou a quebrar barreiras e derrubar preconceitos entre os dois conceitos musicais, construindo uma nova identidade ao espaço.

“Foi uma inovação”, comenta o violeiro, compositor e pesquisador musical Roberto Corrêa que, 1985, se tornaria o primeiro professor do núcleo de viola caipira da Escola de Música de Brasília.

“Para se ter uma ideia, não havia nenhuma literatura na época sobre o tema, tudo teve que ser inventado, pesquisas, construir os métodos de ensino”, diz com orgulho o professor-artista, autor de dois livros acadêmicos sobre o assunto, um deles lançado no ano passado pela Universidade de São Paulo.