10/5/21 20:32
Atualizado em 10/5/21 às 20:32

Ceac para bastidores anima e dá fôlego ao segmento

Cadastramento cultural vai beneficiar muitos profissionais que trabalham, na maioria das vezes, sem reconhecimento

“A Secec percebeu que esses profissionais tão importantes na cadeia da economia criativa permaneciam invisíveis para a pasta, sem acessar as suas políticas públicas” Bartolomeu Rodrigues, secretário de Cultura e Economia Criativa

A inclusão da chamada arte técnica ou de bastidores (backstage para a música; coxia para as artes cênicas) no Cadastro de Entes e Agentes Culturais (Ceac) vai levar benefícios a muitas categorias de trabalhadores culturais. Organizado pela Secretaria de Cultura e Economia Criativa (Secec), o Ceac vai ajudar a profissionalizar um setor marcado pela precarização do trabalho, jogando luz em quem costuma trabalhar na invisibilidade.

Esses profissionais podem, a partir do cadastramento no Ceac, ter acesso a recursos públicos do Fundo de Apoio à Cultura (FAC) e da Lei de Incentivo à Cultura (LIC). A ação da Secec dá dignidade às várias atividades que ajudam, sem o devido reconhecimento público, a construir a cena do espetáculo.

Percussionista Kika Carvalho: “Essa era uma pauta que a gente buscava há muito tempo” | Foto: Divulgação/Secec

Agentes culturais do segmento, como o Coletivo Backstage Brasília, contribuíram com sugestões para mudar a Portaria nº 488 de 2019 da Secec, substituída pela de nº 54, publicada no Diário Oficinal do Distrito Federal (DODF) de quarta-feira (5), estendendo o acesso a recursos públicos de fomento à cultura a mais profissionais da cadeia da economia criativa, como artistas circenses de lona, da comunidade LGBTQIA+ e profissionais da gastronomia.

“Essa é uma conquista direta do trabalho que realizamos com a Lei Aldir Blanc no DF”, explica o secretário de Cultura e Economia Criativa, Bartolomeu Rodrigues. “A Secec percebeu que esses profissionais tão importantes na cadeia da economia criativa permaneciam invisíveis para a pasta, sem acessar as suas políticas públicas.”

Agentes visíveis

Integrante do Backstage, Alexandra Ferreira Gonçalves diz estar satisfeita a publicação da portaria. “Isso corrige um erro histórico, porque você não pode limar a capacidade criativa de pessoas pelo fato de atuarem na área técnica”, avalia. “Os recursos públicos têm de chegar a todos os elos da cadeia produtiva. Foi um primeiro passo muito importante”.

“A portaria retira esses agentes da invisibilidade para as políticas públicas”Sol Mendes, subsecretária de Difusão e Diversidade Cultural

A subsecretária de Difusão e Diversidade Cultural, Sol Montes, endossa: “A portaria retira esses agentes da invisibilidade para políticas públicas. Se você não tem nem o nome de seu segmento reconhecido pelo Estado, como ser alvo de políticas específicas para o setor? Daí o esforço da Secec para subsidiar mudanças no Ceac com o apoio de representantes desses trabalhadores. Essas são mudanças construídas coletivamente e que vão ficar como um legado para a sociedade”.

Alexandra, que atua como produtora e curadora de eventos, informa que o coletivo também vai selecionar pessoas que queiram aprender a elaborar projetos e a fazer prestação de contas. “Precisamos de medidas emergenciais. O Backstage vai fazer um mutirão para ajudar a tirar o Ceac da galera”, adianta.

Pesquisa

O coletivo Backstage ouviu 500 trabalhadores de bastidores entre maio e setembro do ano passado e coletou informações importantes para a orientação de políticas alternativas. Confira, abaixo, alguns pontos levantados.

  • 85% são homens, predominantemente autodeclarados como pardos ou pretos, e moram em Ceilândia, Samambaia, Santa Maria e Entorno.
  • 84% precisam de ajuda de cestas básicas neste momento.
  • 50% deles sustentam quatro ou mais pessoas em casa.
  • 42% recebem até R$ 1,5 mil por mês.

A maioria depende de transporte próprio ou público, enfrenta jornadas longas sem descanso ou benefícios previstos, não tem plano de saúde e vive principalmente da iniciativa privada.

Os bastidores, responsáveis pela sustentação da cena do espetáculo, agregam cerca de 40 tipos diferentes de trabalho, como iluminação, áudio e som. Na maioria das vezes, são tarefas aprendidas na prática, sem capacitação formal.

A percussionista e produtora Kika Carvalho, de Samambaia, é um exemplo da trajetória típica de agentes de cultura de bastidor. Autodidata, integrou a banda Batida de Jota por três anos e foi nesse período que iniciou sua carreira como roadie – técnica de apoio que viaja com uma banda em turnê, encarregada de lidar com tarefas de produções de shows, como a afinação de instrumentos, entre outras.

Em 2019, Kika acompanhou a banda Maria Vai Casoutras em eventos do Carnaval de Brasília. No ano passado, ela integrou a produção e a técnica do Festival Música Solidária BSB. Também participa do Backstage Brasília e da Associação de Produtoras e Trabalhadoras de Arte e Cultura (Apta) no DF.

“Estou feliz”, diz. “Essa era uma pauta que a gente buscava há muito tempo, a de ser ouvida e representada nas políticas públicas. Acredito que agora vamos ter mais oportunidades de trabalho.”

Alexandra não tem dúvidas disso: “A partir desse Ceac, a gente vai construir outras formas de impulsionar o segmento e batalhar por editais. Há um grande potencial, por exemplo, na montagem de feiras, instalações na área de arquitetura e capacitação”.

FAC Brasília Multicultural

Essas novas categorias podem tirar o Ceac e se inscrever no FAC Brasília Multicultural, edital publicado na última sexta-feira (30/4) no Diário Oficial do Distrito Federal (DODF). Para isso, as pessoas interessadas devem apresentar os documentos até o dia 13 deste mês para análise em tempo hábil de concorrer ao edital, aberto para propostas entre os dias 14 e 18 próximos.

*Com informações da Secec