22/2/15 20:20
Atualizado em 9/12/16 às 18:44

Arquivo Público do DF recebe acervo de ex-prefeito de Brasília

Doação ocorrerá formalmente nesta quarta-feira (25), em solenidade no Palácio do Buriti

. Foto: Toninho Tavares/Agência Brasília

Documentos oficiais de Paulo de Tarso Santos, prefeito de Brasília de fevereiro a agosto de 1961, farão parte do acervo do Arquivo Público do Distrito Federal, no Setor de Garagens Oficiais Norte. O material, que será doado formalmente pela família na quarta-feira (25), em solenidade no Palácio do Buriti, traz a história política do advogado mineiro de 89 anos. Há um grande apanhado de notícias de jornal, pronunciamentos, redações, cartas e imagens históricas — tudo cuidadosamente colecionado por Maria Nilse da Cunha Santos, mulher do ex-prefeito.

Próximo a Jânio Quadros, Paulo de Tarso Santos foi um dos articuladores da campanha vitoriosa que o elegeu presidente da República em outubro de 1960. Em fevereiro de 1961, Santos foi nomeado prefeito de Brasília, função que exerceu até agosto, mês em que Quadros renunciou ao mandato. O acervo do Arquivo Público contará com originais de ofícios, decretos, nomeações, bilhetes escritos à mão pelos presidentes Juscelino Kubitschek e Jânio Quadros, fotos e documentos que farão parte de uma exposição no Salão Principal do Palácio do Buriti no momento da solenidade.

A superintendente do Arquivo Público, Marta Célia Bezerra Vale, conta que há ofícios de prefeitos da cidade encadernados e organizados, mas diz que não havia algo tão completo sobre um dos primeiros (Paulo de Tarso Santos foi o terceiro). “Esses documentos preencherão uma lacuna que tínhamos no registro histórico”, diz. O material, além de importante para a memória da cidade, abrirá caminhos para novas pesquisas. Para Marta, a decisão da família de doar o material é a melhor forma de manter a história viva. “A vida pública de Paulo de Tarso Santos foi muito rica, e a doação será uma forma de preservar e difundir essa trajetória”, afirma.

O material estava guardado em caixas na Vila Madalena, em São Paulo (SP), aos cuidados de dois dos cinco filhos do ex-prefeito, Vasco da Cunha Santos e Paulo de Tarso da Cunha Santos. O advogado Vasco, de 63 anos, veio à cidade especialmente para deixar parte do material no Arquivo Público. “Meu pai tem muito amor por Brasília.”

Gestão curta e marcante

Mineiro de Araxá, o advogado Paulo de Tarso Santos começou na carreira política em 1955, como vereador da cidade de São Paulo. Em 1958, elegeu-se deputado federal. Em 1960, participou ativamente da campanha vitoriosa de Jânio Quadros à Presidência da República e assumiu a prefeitura de Brasília em 1961.

Apesar de curta, a gestão de Paulo de Tarso Santos foi marcante na história da cidade. Ele foi responsável pela criação das comissões de fundação da Sociedade de Transportes Coletivos de Brasília Ltda. (TCB), da Fundação Cultural e da Fundação do Serviço Social do Distrito Federal. Em julho, montou a comissão integralizadora da Companhia de Energética de Brasília (CEB). O início da urbanização da Asa Norte e do Núcleo Bandeirante também foram resultado do esforço do político.

Em 1963, voltou a Brasília como ministro da Educação e Cultura, época na qual criou o Plano de Alfabetização de Adultos, coordenado por Paulo Freire. No ano seguinte, um mês após o golpe militar de 31 de março, teve o mandato e os direitos políticos suspensos por dez anos pela aplicação do Ato Institucional nº 1. Exilado, morou no Chile de dezembro de 1965 até novembro de 1970.

No retorno ao Brasil, em 1971, voltou a trabalhar como advogado em São Paulo. Trabalhou na Secretaria de Educação do estado em 1983. Em 1989, foi presidente do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo e, em 1991, assumiu o cargo de diretor-presidente da Fundação Memorial da América Latina. Paulo de Tarso Santos tem 89 anos e vive em São Paulo, com a mulher.

À Agência Brasília, Vasco, um dos filhos de Paulo de Tarso que, junto com o irmão Paulo de Tarso Júnior, participa da entrega oficial do acervo no Buriti, falou sobre o ex-prefeito de Brasília:

Como era a relação de Paulo de Tarso Santos com a cidade?
Papai tinha um entusiasmo total com Brasília. Muito católico, dizia que Dom Bosco já havia profetizado a construção da cidade. Chegamos na véspera da inauguração da capital e viemos com a cara e a coragem. Ele era muito a favor da mudança. Havia muito deputado que não queria deixar o Rio de Janeiro, mas não foi o caso [Santos era deputado federal por São Paulo na época da transferência da capital do Rio para Brasília].

E a relação da família com a capital?
Nós gostávamos muito. Quando chegamos, em 1961, moramos na quadra 206 Sul, depois fomos para o Riacho Fundo. De junho de 1963 a 1964, quando meu pai voltou a Brasília como ministro da Educação e Cultura, moramos na Península dos Ministros, no Lago Sul. Pouco antes de sairmos da cidade, voltamos para o apartamento da 206 Sul. Quando meu pai chegou em casa no dia da renúncia, estava muito mal. Na época, só passava uma coisa pela minha cabeça: perder a piscina na casa do Riacho Fundo, que eu amava.

Quando seu pai foi escolhido para assumir a prefeitura de Brasília?
Apesar da especulação que havia de que ele seria o prefeito da cidade, Jânio só o convidou no dia em que tomou posse. Ele articulava muito no meio político, mas era um homem que não tinha apego ao poder. O importante é que essa gente realmente estava comprometida com a mudança da sociedade em favor dos mais necessitados. Essa era a prioridade. A vontade de servir era muito grande.